Direitos humanos, orçamento público e o programa “Brasil sem homofobia”:
“Se o penhor dessa igualdade, Conseguimos conquistar com braço forte”.
Zora Yonara Torres Costa*
Dezembro - 2006
RESUMO
Este estudo realiza uma reflexão sobre o orçamento da secretaria de direitos humanos. Aponta o investimento nesta secretaria no período de 2005, e tem o intuito de problematizar a questão orçamentária. Apresenta também, ações financiadas se detendo e direcionando o debate no que se refere aos recursos aplicados no programa “Brasil sem Homofobia”. Por fim, estabelece uma discussão acerca dos direitos humanos e parco financiamento e combate a homofobia.
Introdução
A questão central a ser estudada neste texto é a produção de conhecimentos críticos sobre as práticas concretas no orçamento da Secretaria de Direitos Humanos, especificamente no que se referem ao Programa Direitos Humanos, Direitos de Todos, enfocando o programa governamental “Brasil sem homofobia”.
As preocupações teóricas desta pesquisa, acerca dos dados orçados para a secretaria em 2007, remete a uma grande pergunta como manter a eficácia das ações com tantos cortes?
Existe uma questão conjuntural que permeia o contexto das políticas sociais no Brasil e diante disso as soluções perpassam por uma mudança de paradigma, compreendendo que as questões são estruturais.
Perceber que é fundamental uma criticidade quanto à reafirmação da importância de estratégias que combata este pensamento ortodoxo, de que se há déficits orçamentários no país, é preciso cortar o gasto público social.
“Direitos humanos, orçamento público e o programa “Brasil sem homofobia”: Se o penhor dessa igualdade, conseguimos conquistar com braço forte”, é um título usado para referenciar as conquistas sociais realizadas pelo movimento social seja no campo social, econômico e político. É evidente como os direitos sociais, aqui especialmente os direitos que permitem uma inclusão social, como o programa “Brasil sem homofobia”, tem uma imbricação com a dimensão econômica para a sua efetivação.
Portanto este estudo aqui apresentado tem o objetivo estabelecer uma discussão sobre programas governamentais, especialmente “Brasil sem Homofobia”, pois este campo é pouco debatido na sociedade.
1. Pressupostos históricos:
A Declaração Universal dos Direitos Humanos(1948) consolidou uma visão contemporânea acerca dos direitos humanos e abrangeu um padrão ético centrado em princípios como universalidade, indivisibilidade e interdependência dos direitos, apontando que todos os direitos (civis, políticos, econômicos, sociais e culturais) são indissociáveis entre si e são igualmente necessários à garantia da dignidade humana.
Daniela Ikwa descreve os princípios:
A universalidade implica o reconhecimento de que todos os indivíduos têm direitos pelo mero fato de sua humanidade. A universalidade diz respeito ao reconhecimento de que somos todos iguais em relação a direitos e por possuirmos todos igual dignidade. A percepção de que o indivíduo é sujeito de direitos por ser uma pessoa, e não somente por ter nascido ou ser membro reconhecido de um determinado Estado, flexibilizou a noção tradicional de soberania e consolidou a idéia de que o indivíduo é um sujeito de direitos no âmbito internacional.
A indivisibilidade implica na percepção de que a dignidade humana não pode ser buscada apenas pela satisfação de direitos civis e políticos, tais como os direitos à liberdade de expressão, à liberdade de ir e vir, o direito ao voto, os direitos econômicos, sociais e culturais, o direito à educação, o direito à alimentação e à moradia.
A interdependência aponta para a dependência entre direitos econômicos e direitos civis e políticos, assim como para a dependência entre os direitos civis e políticos e os econômicos. A efetivação do direito ao voto, que é um direito político, depende da garantia ao direito à educação, um direito social. Sem a educação e sem o conhecimento das opções existentes não há o poder efetivo de escolha política pelo voto. Do mesmo modo, a efetivação do direito à alimentação depende da consolidação do direito à participação política.
Já o pesquisador, Louis Henkin aponta que a concepção dos direitos humanos esteve dividida em dois momentos históricos, anterior e posterior à Segunda Grande Guerra Mundial. Destacando-se três marcos dos direitos humanos na esfera internacional: o Direito Internacional Humanitário, a Liga ou Sociedade das Nações e a Organização Internacional do Trabalho - OIT. A Liga, pois esta posteriormente foi substituída por outra instituição: a Organização das Nações Unidas - ONU.
Os direitos sociais foram reconhecidos, conjuntamente com os direitos civis e políticos, no elenco dos direitos humanos, Telles (1997) aponta que “falar dos direitos sociais significa falar dos dilemas talvez os mais cruciais do mundo contemporâneo”.
Os dilemas cruciais estão fatalmente imbricados com a dimensão econômica, determinada situação social, como por exemplo, promoção de direitos humanos pode ser fragilizada se não há uma demanda orçamentária para fortalecer e romper com o ciclo de desigualdade, por esta razão a política social, que nasce jurídica e institucionalmente com a Constituição de 1988, enquanto uma garantia de direitos ao cidadão, necessita de recursos para promover e atuar na manifestação da questão social apresentada.
A analise do orçamento social da secretaria de direitos humanos é uma forma de compreender o significado de políticas sociais, e o conjunto de programas e ações do Estado, objetivando o atendimento dos direitos sociais, garantindo a segurança em determinadas situações.
Assim, se pressupõe que as políticas sociais associadas diretamente com a dimensão econômica redistributiva, que envolva a produção, provisão e transferência de bens e serviços sociais, trará um bem estar a sociedade que não disponibiliza de recursos para sua subsistência.
2. Configurações conjunturais e orçamento parco:
A criação da Secretaria de Especial dos Direitos Humanos, no âmbito do Ministério da Justiça, possibilitou o engajamento efetivo de ações governamentais voltadas para a proteção e promoção de direitos humanos.
O PNDH - Plano Nacional de Direitos Humanos aglomera demandas de toda a sociedade brasileira, relacionadas com os direitos humanos e identifica alternativas para a solução de problemas estruturais, permitindo uma inclusão no que se refere aos direitos sociais, subsidiando a formulação e implementação de políticas públicas e fomentando a criação de programas governamentais concebidos sob a ótica da promoção e garantia dos direitos humanos.
Desta forma, as metas do plano nacional foram, sendo incorporadas aos instrumentos de planejamento e orçamento do Governo Federal, convertendo-se em programas e ações específicas com recursos financeiros assegurados nas Leis Orçamentárias Anuais, de acordo com o Plano Plurianual (PPA).
O Plano Nacional de Direitos Humanos possui princípios e dentre eles o Direito à Liberdade, em que a orientação sexual se destaca como uma temática importante na luta contra a discriminação, combatendo deste modo o preconceito sob a ótica da inclusão propondo um novo paradigma em relação aos direitos sexuais, especificamente a dos homossexuais, propondo:
114. Propor emenda à Constituição Federal para incluir a garantia do direito à livre orientação sexual e a proibição da discriminação por orientação sexual.
115. Apoiar a regulamentação da parceria civil registrada entre pessoas do mesmo sexo e a regulamentação da lei de redesignação de sexo e mudança de registro civil para transexuais.
116. Propor o aperfeiçoamento da legislação penal no que se refere à discriminação e à violência motivadas por orientação sexual.
117. Excluir o termo ‘pederastia’ do Código Penal Militar.
118. Incluir nos censos demográficos e pesquisas oficiais dados relativos à orientação sexual.
As mudanças à cerca da realidade de intolerância que muitas(os) cidadãs(ãos) brasileiras(os) vivenciam perpetuou impunemente durante muitos tempo. Houve um longo período em que esta população contava apenas com a “sorte”, o que condenou a morte muitos homossexuais no Brasil.
Cada vez mais, políticas sociais têm se efetivado no bojo dessa trama social, que exclui e marca a vida de muitos brasileiros, diante desta realidade distorcida e valorativa, se concebeu o programa governamental que promove ações preventivas a homofobia.
Atualmente este programa de governo, denominado “Brasil sem homofobia” vem tomando corpo na sociedade. Verifica-se que há um investimento e financiamento em políticas sociais e direitos humanos, contribuindo para uma formulação mais assertiva em relação aos direitos sociais.
Diante desta conjuntura perversa e excludente a Secretaria Especial de Direitos Humanos, disponibilizou recursos para atuar na prevenção da homofobia. Em 2005, do total previsto para a SEDH, foram utilizados R$ 73,4 milhões para a execução dos programas e ações sob sua responsabilidade, de acordo com o quadro a seguir:
Tabela Exercício 2006 - Ano Base 2005 - Brasília, setembro de 2006
Recursos
orçamentários
autorizados
(LOA + Créditos): R$ 124.574.997,00 Realizado
orçamentários: R$ 73.405.347,00
Recursos não
orçamentários
previstos: - Realizado não
orçamentário: -
Total previsto: R$ 124.574.997,00 Total realizado: R$ 73.405.347,00
Fonte: SIGPlan
Além disso, do total de R$ 8,2 milhões inscritos em restos a pagar, relativo ao exercício de 2004, foram executados R$ 4,3 milhões.
No âmbito do programa “Direitos Humanos, Direitos de Todos”, foram investidos R$ 16.082.502,00, destes recursos foram apoiados 16 centros de referência em direitos humanos e 3 conselhos, na emissão de 10.200 documentos, no atendimento a 55.104 pessoas nos serviços de orientação jurídica gratuita, de mediação de conflitos e de informações em direitos humanos (balcões de direitos), entre outros.
Destaca-se que em 2006 a secretaria financiou Centros de Referência para o combate à homofobia serão instalados no interior do país, para desenvolver projetos de prevenção e combate a homofobia. Foram 15 projetos selecionados a partir de edital de chamada pública. Cada entidade recebeu até R$ 70 mil para a instalação dos Centros de Referência, totalizando mais de R$ 7 milhões repassados pela Secretaria no apoio do programa “Brasil sem homofobia”. Os Centros oferecem orientação jurídica e atendimento psicosocial, além de formação em direitos humanos para a comunidade, escolas, profissionais da área da saúde, da área de segurança e para agentes públicos em geral. “O objetivo formar uma sociedade mais humana e sem preconceitos”, afirmou a assessora técnica da SEDH, Mariana Miranda Tavares. Até o fim do ano será materializado convênio com cada entidade para o repasse dos recursos.
A Secretaria Especial de Direitos Humanos (SEDH), no período inicial do governo Lula, representou uma grande conquista dos movimentos sociais quando ganhou status de ministério. Esta conquista gerou forte expectativa aos movimentos e entidades da sociedade civil que promovem a efetivação dos direitos humanos, econômicos, sociais, culturais e ambientais. O ano de 2005 houve um grande retrocesso, pois a SEDH perdeu seu status de ministério durante seis meses.
No segundo mandato do governo Lula, movimentos sociais de direitos humanos avaliam que será preciso avançar muito mais em diversas áreas sociais, para de fato consolidar o paradigma centrado na proteção social por meio das políticas sociais. Logicamente, que é preciso priorizar políticas sociais imbricando com o Plano Nacional de Direitos Humanos, com enfoque nos direitos humanos, sem perder a perspectiva econômica e o campo orçamentário, esta é uma atitude essencial para ações cada vez mais eficazes.
O orçamento previsto para 2007, há uma diminuição grande de recursos para ações. Infelizmente o quadro é de uma grande redução orçamentária dos recursos para políticas voltadas à promoção dos direitos humanos. Diante disso, as configurações e o parco orçamento afetam o diretamente as ações. O orçamento público é um instrumento fundamental no combate às desigualdades sociais, e que garante os recursos para a efetivação das políticas públicas de promoção da igualdade.
Houve uma redução enorme na lei orçamentária de 2007, em relação ao ano de 2006. Por exemplo, os recursos destinados à população de Gays, Lésbica, Bissexuais, Travestis e Transexuais(GLBTT) em 2007, esta previsto um valor de apenas R$ 2 milhões. Em 2006 foram previstos R$ 7 milhões para prevenção e combate à homofobia, voltados para os centros de referência GLBTT, que oferecem assistência jurídica e psicológica para homossexuais vítimas de violência.
Apesar dos avanços, como a criação do Programa Brasil sem Homofobia, a atuação da secretaria depende de recursos para uma melhor atuação, e fica claro que as limitações orçamentárias dificulta a participação e desenvolvimento de atividades em prol dos direitos humanos no Brasil destaca-se um abandono orçamentário das políticas de direitos humanos .
O programa “Brasil sem homofobia”, o maior plano de ação governamental, que insere uma política social de proteção aos homossexuais, tem como princípio básico combater a violência e a discriminação contra os homossexuais e promover os direitos sociais, tendo como foco central à eqüidade . Como uma política social, sendo esta uma questão atual por reconhecer os direitos sociais estabelecidos nos marcos legais, de todos e todas, incluindo os homossexuais. Isto se torna um desafio para o campo ético-político societário, como garantir que haja um orçamento mais amplo para as ações de inclusão.
3. Direitos Humanos e orçamento:
O gasto público não é um mero registro de despesas, as formas de financiamento das diversas áreas estão relacionado com as contribuições diversas, como exemplo a contribuição de empregados e trabalhadores da seguridade social.
Desta forma, é importante apontar que a execução orçamentária-finaceira possui uma participação de recursos mediante os impostos arrecadados, este é o caso da Secretaria Especial de Direitos Humanos, cujas fontes como recursos provenientes de impostos, contribuições sociais, contribuições econômicas, entre outros constituem uma grande relevância no financiamento.
As finanças sociais possuem uma grande complexidade no conjunto estrutural e um padrão fiscal-finaceiro nos gastos públicos, existe uma problemática na eficácia distributiva no Brasil dos acondicionamentos tributários que sustentam o financiamento social.
O conjunto de gastos públicos vem sofrendo restrições macroeconômicas, diante dos cortes de gasto social as políticas e programas sofrem diante de iniciativas que tornam ainda mais fragilizada atuação em torno da proteção social, as evidências históricas vêm apontando as crises como no governo de FHC, que mutilou ações de garantia de direitos, manipulando de acordo com interesses ortodoxos das classes dominantes, numa sinfonia neoliberal.
Em suma, é preciso construir alicerces com uma participação de atores sociais na decisão dos recursos orçamentários, rompendo com o discurso elitista que inibe a expansão do orçamento das políticas sociais - direitos humanos, revelando a importância do investimento em políticas que rompam com a exclusão social, pois “Se o penhor dessa igualdade conseguimos conquistar com braço forte”, não se pode relegar a sorte a garantia dos direitos conquistados pelos movimentos sociais no Brasil.
4.. Considerações Finais:
O financiamento de políticas de direitos humanos vem se mantendo de forma desfocada, pois os cortes criam formas anacrônicas no orçamento, dificultando a implantação de ações em direitos humanos.
Desta forma o orçamento da Secretaria Especial de Direitos Humanos revela uma baixa quanto aos recursos destinados aos programas e projetos no ano de 2007. A conjuntura atual e o capitalismo contemporâneo no caso brasileiro, personificam bases no que se refere ao desvio de recursos, que deveriam ser aplicados na consolidação e garantia de direitos, que passa a cobrir a divida pública brasileira, dando mais corpo ao capital financeiro.
Os gastos públicos realizados em programas governamentais no que tange os direitos humanos revelam a pouca importância dada ao financiamento das políticas de proteção referentes aos direitos humanos.
Diante disso, verifica-se que 2007 será um ano de contenção de gastos, revelando o largo descaso com as ações desta secretaria, expondo assim que o orçamento público enquanto um instrumento fundamental no combate às desigualdades sociais, pode ser comprometido a efetivação das políticas públicas de promoção da igualdade.
Portanto, é necessário uma reflexão a cerca desta diminuição dos recursos. Fica a questão: como construir alicerces que permitam uma ampliação orçamentária das ações da secretaria de direitos humanos? Diante desta questão se compreende que esta é uma questão estrutural, e desta forma romper com a ideologia neoliberal e demandar uma política orçamentária pautada na garantia dos direitos com a participação do povo nas decisões, é salutar para combater o descaso que impera em relação às políticas públicas sociais.
5. Referências:
CASTRO, J. A. e JUNIOR, J. C. C. Dimensionamento e análise das finanças sociais do governo federal: 1995 a 2002. IPEA: DF, 2006.
BOSCHETTI, I. e SALVADOR, E. Orçamento da seguridade social e política econômica – perversa alquimia. 2005.
MINISTÉRIO DA SAÚDE E SECRETARIA DE DIREITOS HUMANOS. “Brasil sem homofobia”. 2004.
MINISTÉRIO DO PLANEJAMENTO, ORÇAMENTO E GESTÃO - SECRETARIA DE PLANEJAMENTO E INVESTIMENTOS ESTRATÉGICOS. Plano plurianual 2004-2007, relatório anual de avaliação. Caderno 26.2006
TELLES, VERA DA SILVA. Direitos Sociais: afinal do que se trata. 1997.
SECRETARIA ESPECIAL DE DIREITOS HUMANOS. Plano Nacional de Direitos Humanos. 2004.
* Zora Yonara Torres Costa é Assistente Social e pesquisadora social. Integra a LBL - Liga Brasileira de Lésbicas, atualmente atuante na regional do Centro-Oeste/Distrito Federal .